Entrevista - Frei André fala ao site da Rondinha


Por Frei Geovany Mendonça

Nos dias 17 e 18 de março, aconteceu no Convento São Boaventura a reunião do Secretariado da Evangelização. E, aproveitando a ocasião fez-se o convite ao Fr. André Becker, secretário da Evangelização, para que nos concedesse uma entrevista acerca do Secretariado da Evangelização.

Frei Geovany: Frei André, quem integra o Secretariado da Evangelização e o que se discutiu nesta reunião?
Frei André Becker: O secretariado se reuniu para discutir a evangelização na Província, rever o plano de Evangelização e suscitar novas propostas diante dos desafios que constantemente se apresentam às diversas realidades que os frades atuam. O Secretariado da Evangelização comporta as Paróquias, o Departamento de Educação e Comunicação (DEC), aos Santuários, ao Comissariado da Terra Santa e as Missões Ad Gentes da província.

Frei Geovany: Quais são os maiores desafios de evangelização que se encontra na Província?
Frei André Becker: O primeiro grande desafio é a grande crise que passa a Igreja Católica que não sabe mais qual rumo tomar e como atrair os fiéis, o que acaba afetando também os franciscanos. Outro grande desafio é trazer os jovens de volta para a Igreja o que também já vem sendo discutido nas paróquias e nos colégios franciscanos e será pauta da Conferência dos Frades Menores do Brasil (CFMB) e da próxima reunião dos párocos da província.

Frei Geovany: Qual é a situação da Evangelização da província hoje?
Frei André Becker: Com o Plano de Evangelização pode-se afirmar que houve avanços na organização dos serviços e das formas de evangelização. Insiste-se muito, hoje, para a necessidade da ajuda dos leigos na evangelização, assumindo como parceiros dos frades em suas atividades, não como meros executadores de tarefas, mas que caminhem juntos e em sintonia nas atividades desenvolvidas. Deve-se considerar ainda que muitas são as realidades que envolvem aos frades desde o Sul até o Sudeste onde a Província se situa, sendo cada realidade específica e com seu jeito todo próprio. Assim, para se evangelizar é preciso está atento ao contexto que se está inserido. Discute-se também a possibilidade de acompanhar os estudantes de Teologia em seus estágios pastorais e demonstrar e incentivá-lo na evangelização e que a mesma contribui para a própria formação. Assim, ressalta-se que todos somos evangelizadores seja atendendo numa portaria, seja nas artes ou em qualquer outro serviço desempenhado pelo frade, pois nisso está a missão do Ser Frade: Evangelizar!

Frei Geovany: Por fim, qual a mensagem que você gostaria de deixar como incentivo a Evangelização?
Frei André Becker: Que o frade esteja aberto aberto para estar presente nas novas realidades, areópagos e desafios que se apresentam e que os meios de comunicação, que são cada vez mais presentes em nossa sociedade, possam ser também meios de evangelização e que os frades possam se qualificar na utilização destes meios de propagação do Evangelho e do ser Franciscano. E que tenham a sensibilidade de cada vez mais investir na ação evangelizadora que, segundo o Visitador Geral, Frei Flaerdi Silvestre Valvasori, a Ordem já produziu muitos documentos e agora é preciso se voltar aos documentos e se empenhar na ação evangelizadora.
(fonte: http://www.franciscanos.org.br)

CF 2009 – Segurança Pública


A Campanha da Fraternidade de 2009 aborda um dos temas mais preocupantes da atualidade: a segurança pública. Muito se tem falado do contexto social de violência em que vive a sociedade brasileira – e mundial –, no entanto, muito pouco se tem feito de forma a mudar essa realidade.

Temos consciência de que a integridade da pessoa humana é um direito inalienável. Bem sabemos que o Estado deve garantir a segurança pública, mas ao mesmo tempo, cada cidadão deve ter consciência de que segurança se constrói através da mescla de igualdade social e educação.

Somos herdeiros de uma colonização, em sua essência, violenta. As raízes do passado já não são válidas para justificar a falta de segurança. Já se passaram mais de 500 anos desde a colonização.

É, também, importante mudar a idéia de que os interesses pessoais se sobressaiam aos interesses comuns. A indústria do medo deve ser desestruturada e os meios de comunicação, principais agentes de formação social e cultural devem assumir o compromisso de construção de uma paz para todos.

O Antigo Testamento nos mostra que a única fonte de nossa segurança é o próprio Deus. Ele, também, mostra que fomos criados para a comunhão com Deus e com os irmãos, na vivência concreta do amor e somente a partir desse critério poderemos de fato ter segurança. Somente põe a sua confiança no Senhor aquele que faz a Sua vontade.

No Sermão da Montanha, Jesus mostra que devemos quebrar a rede de ódio e vingança que existe na sociedade porque violência gera mais violência.

As primeiras comunidades cristãs testemunhavam a prática da paz fundamentada nos valores evangélicos, principalmente no cuidado com os pequenos e com os necessitados. Mostram que a paz não vem pela força das armas, mas dos relacionamentos, fundamentados no amor, porque Deus é amor e ele é a fonte da verdadeira paz e da concórdia.

Somente a partir dos critérios do Evangelho é que se torna possível pensar verdadeiramente em segurança. Paulo reconhece que o amor é a plenitude da Lei (Rm 13,10), fonte, portanto, de toda segurança a que a humanidade aspira.

Muitas são as dificuldades em relação à segurança, no Brasil. A violência atinge a todos nos lugares mais distantes. As várias formas de violência como: familiar, de rua, escolar, entre outras, aterrorizam famílias inteiras.

A campanha da fraternidade de 2009 propõe como via de mudança a esses hábitos um intensivo em ações educativas, tais como, trabalhar junto com as famílias conscientizando das necessidades de uma boa educação a seus filhos, divulgar e mostrar os objetivos propostos pela campanha nas escolas, campanhas educacionais sobre a violência levando todos a maior responsabilidade com a segurança dos que estão próximos.

Não se deve esperar um resultado milagroso, mas um resultado que aparecerá de acordo com os trabalhos desenvolvidos.

O cartaz da campanha:

O conceito principal da imagem é mostrar que a paz pode ser conseguida em qualquer nível cultural ou econômico e que a cultura é uma forte ferramenta para a conquista da paz e da justiça. A perspectiva da foto tem o objetivo de ilustrar que o acesso à cultura pode trazer mudanças.

Podemos perceber que há lixo jogado, representando uma vida bagunçada e sem sentido. Que é deixada para trás. O jovem da foto é um convite para que se criem condições para a promoção de uma cultura da paz fundamentada na justiça social e iluminada pelo Evangelho e pelos valores cristãos.

Por: Paulinos de BH
http://paulinos.org.br/novo/blog/

O Messias e os marginalizados


A exclusão está na moda, virou princípio de organização socioeconômica: a lei do mercado, da competitividade. Quem não consegue competir, desapareça. Quem não consegue consumir, deve sumir.

Escondemos favelas por trás de paredões ou placares de publicidade. Que os feios, os aleijados, os idosos, os aidéticos não poluam os nossos cartões postais!

Em tempos idos, a exclusão muitas vezes provinha da impotência ou da superstição. Assim, a exclusão dos cegos e coxos do templo de Jerusalém. Ou a marginalização dos leprosos, ilustrada abundantemente em Lv 13-14 (cf. 1ª leitura).

Enquanto não se tivesse constatado a cura por um complicado ritual, o leproso era considerado impuro, intocável. Jesus, porém, toca no leproso – e o cura (evangelho). É um sinal do Reino de Deus. Jesus torna o mundo mais conforme ao sonho de Deus. Pois Deus não deseja sofrimento nem discriminação.

O Antigo Testamento pode não ter encontrado outra solução para esses doentes contagiosos que a marginalização; mas Jesus mostra que um novo tempo começou.

Começou, mas não terminou. Reintegrar os marginalizados não foi uma fase passageira no projeto de Deus, como os benefícios que os políticos realizam nas vésperas das eleições. O plano messiânico continua através do povo messiânico, como se concebe a Igreja.

Devemos continuar inventando, quando pudermos, soluções contra toda e qualquer marginalização. Pois somos todos irmãos e irmãs.

Seremos impotentes para excluir a exclusão, como os antigos israelitas em relação à lepra? Que fazer com os criminosos, viciados no crime?

Será nosso mundo tão bom que possa reintegrar tais pessoas, sem que se enrosquem de novo? O fato de ter de marginalizar alguém é um reconhecimento da não-perfeição de nossa sociedade.

Toda forma de marginalização é uma denúncia contra nossa sociedade, e ao mesmo tempo um desafio.

Isso é muito mais ainda o caso em se tratando de pessoas inocentes. A marginalização é sinal de que não está acontecendo o que Deus deseja. Onde existe marginalização, o Reino de Deus ainda não chegou, pelo menos não completamente. E onde chega o Reino de Deus, a marginalização não deve mais existir.

Por isso, Jesus reintegra os marginalizados, como é o caso do leproso, dos pecadores, dos publicamos, prostitutas.... Essa reintegração está baseada no poder-autoridade que Jesus detém como enviado de Deus: “Se quiseres, tens o poder de me purificar” (Mc 1,40). Jesus passa por cima das prescrições levíticas, toca no leproso e o “purifica” por sua palavra em virtude da autoridade que lhe é conferida como “Filho do Homem” (= “executivo” de Deus, cf. Mc 2, 10.28).

Há quem pense que os mecanismos auto-reguladores do mercado são o fim da história e a realização completa da racionalidade humana. E os que são (e sempre serão) excluídos por esse processo, onde ficam? Não será esse raciocínio o de um varejista que se imagina ser o criador do universo?

Existe um outro caminho, o de Jesus: solidarizar-se com os marginalizados, os excluídos, tocar naqueles que a “lei” proíbe tocar, para reintegrá-los, obrigando a sociedade a se abrir e a criar estruturas mais acolhedoras. Mais messiânicas.

Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
(fonte: http://www.franciscanos.org.br/)

O profeta do reino de Deus


Jesus é o profeta do Reino de Deus. Mas que é um profeta? ... O profeta é mediador e porta-voz de Deus.

No evangelho, Jesus é apresentado como porta-voz de Deus e de seu Reino.


Deus mostra que está com ele. Dá-lhe poder de fazer sinais: na sinagoga de Cafarnaum, Jesus expulsa um demônio, e o povo reconhece sua autoridade profética: “Um ensinamento novo, dado com autoridade...” (Mc 1,27).

Ora, os sinais milagrosos servem para mostrar a autoridade do profeta, mas não são propriamente sua missão. Servem para mostrar que Deus está com ele, mas sua tarefa não é fazer coisas espantosas. Sua tarefa é ser porta-voz de Deus.

Jesus não veio para fazer milagres, e sim, para nos dizer e mostrar que Deus nos ama e espera que participemos ativamente de seu projeto de amor. Por outro lado, os sinais, embora não sejam sua tarefa propriamente, não deixam de revelar um pouco em que consiste o reino que Jesus anuncia. São sinais da bondade de Deus.

Jesus nunca faz sinais danosos para as pessoas (como as pragas do Egito que aconteceram pela mão de Moisés). O primeiro sinal de Jesus, em Mc, é uma expulsão de demônio. A obsessão demoníaco simboliza o mal que toma conta do ser humano sem que este o queira.

Libertando o endemoninhado do seu mal, Jesus demonstra que o Reino por ele anunciado não é apenas apelo livre à conversão de cada um, mas luta vitoriosa contra o mal que se apresenta maior que a gente.

O mal que é maior que a gente existe também hoje: a crescente desigualdade social, a má distribuição da terra e de seus produtos, a lenta asfixia do ambiente natural por conta das indústrias e da poluição, a vida insalubre dos que têm de menos e dos que têm demais, a corrupção, o terror, o tráfico de drogas, o crime organizado, o esvaziamento moral e espiritual pelo mau uso dos meios de comunicação...

Esses demônios parecem dominar muita gente e fazem muitas vítimas. O sinal profético de Jesus significa a libertação desse mal do mundo, que transcende nossas parcas forças. E sua palavra, proferida com a autoridade de Deus mesmo, nos ensina a realizar essa libertação.

Como Jesus, a Igreja é chamada a apresentar ao mundo a Palavra de Deus e o anúncio de seu Reino. Como confirmação dessa mensagem, deve também demonstrar, em sinais e obras, que o poder de Deus supera o mal: no empenho pela justiça e no alívio do sofrimento, no saneamento da sociedade e na cura do meio ambiente adoentado. Palavra e sinal, eis a missão profética da Igreja hoje.

Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
(fonte: http://www.franciscanos.org.br/)

"Pescadores de Homens"

Marcos situa rapidamente o contexto em que aparece o programa de Jesus, sintetizado pela primeira declaração do Mestre nesse evangelho. Temos uma vaga indicação de tempo (“Depois que João Batista foi preso”) e de lugar (“Jesus foi para a Galiléia”. O mensageiro de Jesus foi preso.

Marcos dirá mais adiante quais os motivos da prisão do Batista e as razões que o levaram à morte (cf. 6,17ss).

Esse dado é importante. O mensageiro de Jesus mexeu com os interesses e privilégios dos poderosos. O que irá acontecer com Jesus? Aos poucos o evangelho mostrará que Jesus, “o forte” (1,7), não se deixa amedrontar pelos poderosos, vencendo os mecanismos que geram morte para o povo.

A Galiléia é o lugar social onde Jesus inicia sua atividade. Essa região era sinônimo de marginalidade, lugar de gente sem valor e impura. É no meio dessa gente e a partir dela que Jesus anuncia seu programa de vida: “O tempo já se cumpriu e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e creiam no evangelho”.

Depois que ressuscitou, o Mestre convida os discípulos a descobri-lo vivo na Galiléia, sinal de que a prática de Jesus em nada difere da dos que o desejam seguir.

O programa de Jesus (v. 15) consta de três momentos.

Em primeiro lugar, ele anuncia que “o tempo já se cumpriu”. A espera da libertação chegou ao fim. Deus está presente em Jesus, atuando seu projeto de liberdade e vida.

O caminho de Deus e o caminho dos marginalizados são uma coisa só. O desejo expresso em Is 63,19 (“Quem dera rasgasses o céu para descer!”) se cumpriu, pois com Jesus o céu se rasgou (cf. Mc 1,10) e o Deus invisível se tornou gente no meio dos empobrecidos. Fez-se pobre como eles.

Em segundo lugar, Jesus anuncia que “o Reino de Deus está próximo”. Deus tomou a decisão de reinar. Por que o Reino de Deus está próximo? Porque a realeza de Deus vai tomando corpo através dos atos libertadores que Jesus realiza ao longo do evangelho.

Está sempre próximo também mediante a prática dos seus discípulos, aos quais confiou a continuação daquilo que anunciou e fez. O Reino é uma realidade dinâmica. Refazendo a prática de Jesus no tempo, as pessoas e as comunidades vão abrindo espaços para que o Reino se torne realidade.

Em terceiro lugar, Jesus diz: “Convertam-se e creiam no evangelho!” Conversão é sinônimo de adesão à prática de Jesus. A libertação esperada, o céu rasgado, de nada adiantariam se as pessoas que anseiam pela libertação continuassem amarradas aos esquemas que mantêm uma sociedade desigual e discriminadora.

O Evangelho de Marcos é apenas o início da Boa Notícia da libertação trazida por Jesus (cf. 1,1). Ela se tornará realidade mediante o compromisso das pessoas e comunidades que dizem sim ao Mestre.

Os versículos do 16 a 20 mostram o sim de algumas pessoas à Boa Notícia trazida por Jesus. A vocação de Simão e André, Tiago e João (bem como a de Levi em 2,13-14) é apenas um sinal do que acontece com todas as pessoas que, em qualquer tempo e lugar, sentem necessidade de mudança na sociedade. Marcos não se preocupou em detalhar a vocação de todos os discípulos (e nisso foi imitado pelos evangelistas que vieram depois dele).

O que acontece com alguns deles serve de medida para os demais. Jesus escolhe pessoas simples e as chama a partir da realidade do dia-a-dia. Simão e André, Tiago e João são trabalhadores que ganham a vida pescando. (Levi está sentado na coletoria de impostos, cf. 2,14.) Não importa se o que fazem é honesto ou desonesto. O apelo é igual para todos, e a resposta é imediata: “Eles deixaram imediatamente as redes e seguiram a Jesus… Eles deixaram seu pai Zebedeu na barca com os empregados e partiram, seguindo a Jesus… Levi se levantou e o seguiu” .

O apelo feito a Simão e André vale para todos os discípulos: “Sigam-me, e eu farei de vocês pescadores de homens”. A frase de Jesus recorda Jeremias 16,16: Enviarei numerosos pescadores para pescá-los. Aí se fala do julgamento de Javé sobre a sociedade idólatra. A frase recorda também o chamado de Eliseu (cf. 1Rs 19,19-21).

Ser “pescador de homens”, portanto, é ser profeta do Reino à semelhança de Jeremias e Eliseu. Não é possível seguir a Jesus sem um mínimo daquele espírito profético inconformado com a situação vivida pelo povo.

Os que não se conformam e lutam para mudar as situações, provocam o julgamento de Deus na história. São essas as pessoas que Jesus procura
Padre Bantu Mendonça K. Sayla
(fonte: http://www.cancaonova.org.br/)

Escutar Deus e seguir Jesus


Depois da festa do Batismo do Senhor, que no Brasil substitui o 1º domingo do tempo comum, a liturgia dominical continua logo com o 2º. Mesmo sem querer, essa continuação é muito adequada: Jesus, logo depois de ser batizado por João Batista e tentado no deserto, chamou os primeiros discípulos. Segundo Jo, do qual se extrai o evangelho de hoje, foi dentre os discípulos do Batista que surgiram os primeiros seguidores de Jesus. O próprio Batista incentivou dois de seus discípulos a seguir Jesus, “o Cordeiro que tira o pecado do mundo”. Enquanto se põem a segui-lo, procurando seu paradeiro, Jesus mesmo lhes dirige a palavra: “Que procurais?” – “Mestre, onde moras”, respondeu. E Jesus convida: “Vinde e vede”. Descobrir o Mestre e poder ficar com ele tanto os empolga que um dos dois, André, logo vai chamar seu irmão Pedro para entrar nessa companhia também. E no dia seguinte, Filipe (o outro dos dois?) chama Nataniel a integrar o grupo.
A 1ª leitura aproxima disso o que ocorreu, mil anos antes, ao jovem Samuel, “coroinha” do sacerdote Eli no templo de Silo. Deus o estava chamando, mas ele pensava que fosse o sacerdote. Só na terceira vez, o sacerdote lhe ensinou que quem chamava era Deus mesmo. Então respondeu: “Fala, Senhor, teu servo escuta”.
“Vocação” e um diálogo entre Deus e a gente – geralmente por meio de algum intermediário humano. A pessoa não decide por si mesma como vai servir a Deus. Tem de ouvir, escutar, meditar.Que vocação? Para que serviço Deus ou Jesus nos chamam? Logo se pensa em vocação específica para padre ou para a vida religiosa. Mas antes disso existe a vocação cristã geral, a vocação para os diversos caminhos da vida, conduzida pelo Espírito de Deus, e da qual o Cristo é o portador e dispensador. Essa vocação cristã se realiza no casamento, na vida profissional, na política, na cultura etc. Seja qual for o caminho, importa ver se nele seguimos o chamado de Deus e não algum projeto concebido em função de nossos interesses próprios, às vezes contrários aos de Deus.
O convite de Deus pode ser muito discreto. Talvez esteja escondido em algum fato da vida, na palavra de um amigo... ou de um inimigo! Ou simplesmente nos talentos que Deus nos deu. De nossa parte, haja disposição positiva. Importa estar atento. Os discípulos estavam à procura. Quem não procura pode não perceber o discreto chamamento de Deus. A disponibilidade para a vocação mostra-se na atenção e na concentração. Numa vida dispersiva, a vocação não se percebe. E importa também expressar nossa disponibilidade na oração.: “Senhor, onde moras? Fala, Senhor, teu servo escuta”. Sem a vocação não tem vez.
Finalmente, para que a vocação seja “cristã”, é preciso que Cristo esteja no meio. Há os que confundem vocação com dar satisfação aos pais ou alcançar um posto na poderosa e supostamente segura instituição que é a Igreja. Isso não é vocação de Cristo. Para saber se é realmente Cristo que está chamando, precisamos de muito discernimento, para saber distinguir sua voz nas pessoas e nos fatos através dos quais ele fala.
Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

O que batiza com o Espírito Santo


O batismo de Jesus segundo Mc é a investidura do Messias (Cristo) e Filho de Deus. A diferença em relação à missão do João Batista aparece em l,8: o batismo de João situa-se no nível da atitude humana de conversão; o batismo que Jesus trará é a efusão escatológica do Espírito.

João batizando Jesus é mais ou menos como Samuel derramando a unção na cabeça de Davi, rei escolhido por Deus: “A partir daquele momento o Espírito apoderou-se de Davi” (lSm 16,13). No batismo, o Espírito toma posse de Jesus e logo o impele para o deserto (Mc 1,12). Mas há uma diferença em relação a Davi e os profetas: os céus se rasgam, sinal da irrupção de Deus (cf Is 63,l6ss). E a vinda escatológica do Espírito que se realiza em Jesus. Mas essa irrupção é velada: quem vê o céu aberto (em Mc) é só Jesus, e só a ele se dirige a palavra “Tu és meu Filho amado, em ti está o meu agrado” (cf. Is 42,1; 44,2). Para Jesus, a visão do Reino que vem sobre a terra é clara, mas para os outros não. Ao longo de seu evangelho, Mc mostra que com Jesus veio o Reino, mas de um modo diferente do que se esperava. Sua missão messiânica tomará sempre mais a forma do Servo Sofredor .

Na visão de Mc, o batismo de Jesus é o começo do fim, “a inauguração secreta” do tempo messiânico. Só Jesus o sabe, por enquanto. (O segredo do Filho, confiado aqui a Jesus, será revelado aos discípulos prediletos em 9,7 e, no fim do evangelho, o centurião romano o reconhecerá, 15,39.) No querigma cristão, o batismo de Jesus é o início da proclamação de sua obra (cf. At 10,27ss, 1ª leitura).

Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Voz

(http://www.franciscanos.org.br/ )